Sanación femenina

A VIAGEM À CAVERNA UTERINA

Nas profundezas de cada mulher há uma caverna que guarda os segredos das suas memórias uterinas. Nas suas paredes de rocha, existem hieróglifos que relatam tudo o que ela precisa saber sobre si mesma. Um saber tão profundo e extenso como as estrelas do céu, pelo que ela irá necessitar de muitas vidas para revelar uma parte importante dela. Cada mulher é um cântaro de histórias que guarda a verdade sobre a humanidade e a origem do Universo. Mas o que cada mulher não sabe é que a sua caverna uterina conecta-se com as cavernas das suas ancestrais e também com os das demais mulheres. Partilhamos a memória da humanidade nos nossos úteros. Existem marcos que ocorreram ao longo do tempo e que estão plasmados no ventre de cada mulher, assim quando cada uma se cura, cura a outra e a humanidade.

A minha viagem pessoal à caverna uterina foi dolorosa e maravilhosa também, merecendo uma transcendência única na minha vida, que é o que desejo com profundo amor partilhar convosco.

A primeira vez que entrei numa Cerimónia de Temazcal não fiz mais do que chorar. Não conseguia reconhecer de onde vinha tanta tristeza e era o mesmo que acontecia durante as minhas menstruações, pois durante esta viagem existia em mim uma dor inexplicável que o meu corpo e mente não conseguiam alcançar compreensão nem processar.

Mais tarde compreendi que ir a uma tenda de suor, assim como a menstruação, simbolizam o regresso ao útero da Mãe e ali curas aquilo que precisas no momento da tua vida. Esta entrada ao útero dá-nos a consciência de tudo o que estava sem vida dentro dele e ali estão os cemitérios ancestrais habitados por sonhos frustrados, os desamores, os não nascidos, os exilados da família, os esquecidos e os não honrados.

O mesmo acontece durante cada menstruação – cada uma de nós empreende uma viagem solitária à sua própria caverna uterina, essa que leva escritas as nossas histórias de alma e também esse poder criador e a energia sexual das nossas ancestras. Essa força que se foi acumulando à medida que cada mulher do fio vermelho foi parindo e foi capaz de transmitir a vida de geração em geração de forma incansável e ininterrupta até permitir que nós possamos estar aqui e agora. Contudo, nesta viagem deve-se honrar todas as mulheres da nossa árvore, sem esquecer nenhuma delas, tenha sido mãe ou não, tenha sido feliz ou triste, tenha sido boa ou má. Apenas com o facto de recordar uma ancestra e honrar tanto a sua existência como a sua morte, há carga que se soltam e caminhos que se abrem na nossa vida.

Desde o princípio dos tempos, mulheres e homens compreenderam que a menstruação da mulher a conduzia a um estado de transe que apenas elas eram capazes de experimentar. Assim, o seu regresso à caverna uterina ocorria cada mês, lua a lua, e nessa viagem rezavam por toda a humanidade. Foi assim que as xamãs começaram a alcançar este estado de transe com a viagem de tambor e plantas de poder. Com o transe, ingressavam a caverna uterina das suas linhagens, alcançando o mesmo poder sanador que obtinham as mulheres durante o sangramento.

Por outro lado, o tratamento com o Ovo de Obsidiana foi um veículo até à caverna uterina, sendo um toque final na minha viagem pessoal. Através dos sonhos e meditações foram-se revelados segredos transcendentais da minha árvore, o que me permitiu encontrar as raízes da imensa tristeza que habitava o meu espaço uterino. Contudo, aí compreendi que uma parte da cura é encontrar uma resposta e logo surge a tomada de consciência de mudar crenças e hábitos de vida que é o mais difícil. Quando encontras as raízes de uma doença apenas estás a metade do caminho.

A obsidiana também me permitiu reconhecer-me numa linguagem simbólica profunda. Aprende que cada vez que sonhava com água, representava na minha psique o estado emocional da minha caverna uterina, manifestado pelo estado energético do meu segundo chakra. Aprendi assim que as águas turvas eram sinal que a minha menstruação iria chegar intensa, com dores ou com coágulos. Por outro lado, as águas cristalinas e lívidas em que muitas vezes me via a flutuar, indicavam uma menstruação que iria chegar suave e amorosa. A água é um espelho por excelência e, apareça no interior ou no exterior, sempre nos mostra a nossa alma.

Convido-te que durante cada menstruação observes com profunda atenção quais são os sentimentos que mais te invadem. Fecha os teus olhos e abre-te a conhecer as histórias da linhagem que existem atrás de cada sensação. Recorda que cada momento de sangramento é uma viagem profunda à caverna e isto te permitirá compreender com amor e paz a tua dor física e emocional.

Recorda-te que não estás só, não és a única. És um cântaro de histórias universais, escreve essas histórias e comparte-as com o mundo.

Espero que de alguma forma, a tua viagem à caverna uterina apenas te traga cura.

Abraço-te.

Ximena

Se vais copiar este artigo, peço-te para citares a fonte http://www.cantarosagrado.cl
Texto original – http://www.cantarosagrado.cl/2016/03/23/el-viaje-a-la-caverna-uterina/
Traduzido por Isabel Maria Angélica | No Ninho da Serpente | Círculos de Mulheres, Março de 2016

Creadora de Cántaro Sagrado, psicóloga y psicoterapeuta dedicada a la investigación y resignificación de memorias uterinas. Le apasiona escribir, danzar, viajar y acompañar a otras mujeres en su proceso de sanación. Es por ello que hoy su trabajo busca sanar la raíz de todo lo que pueda dificultar el máximo despliegue del propio potencial en el presente, para que vivamos en este mundo como mujeres y hombres cada día más en paz.

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